Sexta-feira (9/11) é dia de encerramento do IV SICO, mas os debates sobre comunicação organizacional e os direitos humanos seguem suscitando reflexões. Na manhã de hoje, a mesa-redonda 3 abordou os “Direitos humanos em contexto: ética, diversidades e narrativas”, contando com os pesquisadores Luiz Peres-Neto (ESPM-SP) e Ricardo Gonçalves de Sales (ECA/USP) e mediação de Luiz Alberto de Farias (ECA/USP; Umesp). “Falar sobre direitos humanos é fundamental. Em toda a minha vida, nunca imaginei que isso fosse tão urgente”, asseverou o mediador Luiz Alberto de Farias.

“Não há direitos humanos fora da democracia”

Luiz Peres-Neto, que integra o grupo de pesquisa em Ética, Comunicação e Consumo (GPECC) e participou do seminário por meio de videoconferência, apresentou discussões em torno da relação entre ética e direitos humanos, de questões que envolvem universalismo e relativismo moral e fez, ainda, uma crítica ao que chamou de “comunicação organizacional neoliberal”. Em seu argumento, Peres-Neto mobilizou o conceito de dignidade humana de Kant e enfatizou que essa dignidade tem um fim em si mesma, não sendo relativa. “Para Kant, é necessário haver uma esfera de dignidade da pessoa que é irrenunciável”, afirmou o pesquisador.

Peres-Neto enfatizou também que a abertura à diversidade não pode se dar somente no campo do discurso oficial das organizações de aceitação das diferenças: “Uma das bobagens repetidas em eufemismos corporativos diz sobre
a importância da tolerância como valor. Mas só tolerar é insuficiente, como nos lembra Vladimir Safatle. Então, por que se diz isso constantemente na narrativa corporativa? Porque está-se fazendo o uso de um termo desprovido de sentido. Ética é aquilo que se quer viver, e não aquilo que se quer comunicar. Não é só
dizer sobre ela, é preciso estar aberto à diversidade”, lembra Peres-Neto. De acordo com o pesquisador, sem essa efetiva abertura ao outro, interesses individuais e econômicos acabam se sobressaindo sobre quaisquer outros.
Precisamos incorporar essa alteridade diversa, convivendo, compartilhando subjetividades e experiências no cotidiano nesse espaço comum que é o espaço público. Não há direitos humanos fora do contexto democrático”, finalizou Peres-Neto.

Ricardo Gonçalves de Sales (ECA/USP), que integra o grupo de pesquisa Diversidades, Interculturalidades, Comunicação e Linguagens (DICULT), abordou temas como diversidade nas organizações, lutas sociais, “ideologia de gestão” e o lugar da comunicação. O pesquisador apresentou também uma genealogia sobre como esse debate chegou aos meios corporativo, universidade e movimentos sociais e, ao fim, listou sugestões de agendas de pesquisa. Os grupos minorizados seriam aqueles que têm seus diversos capitais constituintes, como o capital social, seqüestrados por uma suposta maioria. “Normalmente, as discussões sobre minorias nas organizações dizem respeito a gênero, raça, deficiência e LGBTs”, afirma o pesquisador.

O marco de partida da geneaologia apresentada por Ricardo de Sales é a década de 1960, com o nascimento simbólico do movimento LGBT, lutas raciais, a segunda onda do feminismo (que até então só considerava nessas discussões as mulheres brancas), avanços nos direitos civis e o fim do apartheid como política institucionalizada nos Estados Unidos. No Brasil, na década de 1970, com o enfraquecimento da ditadura e em um contexto em que aconteciam grandes greves, surge o Grupo Somos USP, que reivindicava respeito à homossexualidade também no mundo do trabalho. Na década de 1980, a questão da diversidade nas organizações cristaliza-se na produção acadêmica norte-americana e, em 1990, a diversidade torna-se algo inevitável nas organizações.

As multinacionais aportam no Brasil e trazem consigo esse olhar para a diversidade, ainda que não-adaptado às especificidades brasileiras. Nos anos 2000, no Brasil, surge o primeiro texto sobre diversidade nas organizações, de
Maria Tereza Fleury. Já nesta década, em 2018, no Congresso da Abrapcorp e no Intercom, o tema da diversidade situa-se no centro das discussões. “A produção acadêmica sobre diversidade e comunicação organizacional e relações
públicas ganhou um protagonismo grande nos últimos tempos, inclusive por causa do interesse dos alunos e pesquisadores em falar sobre suas próprias experiências”, explica o pesquisador.

Em relação à diversidade e o que chamou de “ideologia de gestão”, Ricardo explicou que a gestão das diferenças, de forma geral, está orientada para a questão da produtividade. A diversidade traria mais valor para a organização.
Existiria, então, uma associação entre investimentos em diversidade e expectativas de resultados, e a diversidade traria engajamento e inovações às organizações, normalmente sem que sejam apresentados dados para comprovar
essa associação. “Mas essa abordagem antecipa conflitos e desmobiliza grupos, evitando que se organizem coletivamente e se voltem contra as organizações”, ressaltou o pesquisador.

As possibilidades de pesquisa apresentadas por Ricardo de Sales, “com base nas lacunas da pesquisa em nas próprias experiências de vida”, frisou o pesquisador, englobam temas como os seguintes: – políticas de diversidade nas organizações; – interseccionalidade; articulação entre violência organizacional e prazer/sofrimento no trabalho; – polarização, que chega às organizações e que gera resistências em relação a essas pautas, e as guerras culturais; investigação dos sujeitos que, em tese, usufruem as políticas voltadas à diversidade nas organizações.

Por: Carolina Brauer

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